quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mulher de Trinta (e quatro)!

(by Cinthya)

No salão de beleza:

- Cinthya, essa cor que você quer não fica legal para o seu tom de pele.

- Mas é ela que eu quero.

- Mas não vai ficar legal.

- Mas eu quero. Pode pintar.

E ela pintou. E sete dias depois eu cheguei lá novamente:

- Você poderia pintar meu cabelo novamente? De fato, eu não gostei muito dessa cor.

- Eu disse pra você que não ficaria legal.

- Mas eu queria ver e ter a certeza. Pinta logo esse cabelo.

Eu sempre ouvia dizer que quando a gente chega aos trinta, muita coisa muda na nossa cabeça, que a mulher sofre uma reviravolta e que, de longe se percebe o início de uma nova fase em sua vida. Comigo, graças a Deus não foi diferente.

Tudo bem que eu nunca fui dada à convenções, a rebeldia sempre me fez companhia e sempre tive um ponto de vista sobre o mundo que, normalmente difere do ponto de vista defendido pelas demais pessoas. Só que antes eu impunha esse meu jeito de ver as coisas e me incomodava se os outros não entendiam. Eu tinha uma característica que hoje sei não me levava a lugar nenhum, eu era radical por demais.

Chegando os trinta a minha cabeça se abriu para o mundo, abriu-se a minha mente e a alma pôde receber uma enxurrada de coisas novas e belas e eu fui descobrindo que o que eu defendo e acredito é meu. E que cada um escuta se quiser, entende se quiser, aceita se quiser.

Não, eu não tenho trinta anos. Eu tenho “quase” 35 e me considero uma mulher linda e não, eu não tenho a menor modéstia em falar isso. Engravidei aos 31 anos e fui uma grávida muito feliz, embora sozinha, assumi de peito aberto o meu estado de Mãe Solteira e esbanjei beleza e amor durante os oito meses de gestação. Tive e tenho jogo de cintura para não criar e nem alimentar raivas. Nunca cobrei nada do pai e, se hoje ele está conosco é porque quer estar.

Tenho uma linda relação com o meu filho, de parceria mesmo. Tenho a qualidade de vida como prioridade. Abri mão de um emprego que para os outros era “o emprego”, mas que para mim era um mal que me tirava do convívio com o meu filho e minha família. Amo a liberdade e não concordo com nada que me acorrente. Tenho alma livre.

Hoje, aos (ainda) 34 anos eu só namoro com alguém se, de fato, esse alguém me fizer bem. Eu só compro uma roupa se, de fato, eu gostar. Eu só vou para uma festa se, realmente, eu estiver a fim de ir.

Eu me libertei de falsos pudores, não vivo e não sou a imagem do que querem que eu seja, eu sou o que sou e pronto. Se gostar, ótimo. Se não gostar, pode ir passando. Não tenho medo de ficar só, aliás, adoro a minha companhia, adoro o meu espelho e a máquinha fotográfica também.

Me visto da forma que me agrada e não sigo tendência (Beto Binga, infarte! - risos), aliás, normalmente acho terríveis as roupas que a moda diz serem sucesso. O meu charme é moda e essa moda não muda.

Não tenho paciência para conversa mole, não gosto de gente preconceituosa, não sei puxar saco de ninguém e respeito o meu tempo. Tomo porre, se me der vontade. Danço a Xuxa se bater a nostalgia (aliás, por muito tempo eu sonhei em ser Paquita, mas tinha melanina demais para tanto!). Choro com comercial de TV e sonho com um casamento feliz (às vezes). Tenho orgulho da minha vida.

Admito com muita facilidade os meus erros, não tenho vergonha de voltar atrás. Não gosto de teimar com ninguém, afinal ninguém é obrigado a pensar como eu. Me calo para não ofender. Dou risada de mim mesma. Sou doce quando precisa e dou "coice" quando é necessário.

Enfim, hoje eu sei que sou muito feliz. Sei que felicidade não é um estado constante e que ela se apresenta em pedaços, em momentos, como se fossem retalhos. Daí eu posso afirmar que eu faço da minha história um grande e lindo mosaico e não me recordo de ter vivido uma fase tão gostosa quanto essa... E a cada ano me sinto melhor... Isso é vida!




quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Senhora Do Meu Destino.



Existem coisas na vida que fazem mal, mas são deliciosas, então a gente esquece os contras e se joga. Eu tenho um problema de saúde que faz meu peso aumentar, devido a retenção de líquidos e baixa atividade do metabolismo. Por causa desse descompasso, minha vida deveria ser diferente, eu deveria viver em dieta, mas não vivo, deveria fazer exercícios físicos, mas não faço, deveria tomar remédio, mas não tomo, assim como deveria frequentar a nutricionista e à endocrinologista com uma frequência maior do que uma vez por ano, ou uma vez a cada dois anos. Deveria, deveria, deveria, mas não faço! Sei o que é bom e o que é ruim e opto pelo ruim por ser mais cômodo. Azar o meu, eu que arque com as consequências...

Em vários momentos da vida temos essa opção de escolher pelo "bom" ou pelo "ruim" muitas vezes ignoramos essas duas palavras e optamos pelo mas gostoso, mais prazeroso, mais confortável. Até aí tudo bem, cada ser humano é produto de si mesmo, cada um sabe a dor e delícia de ser o que é e cada um que segure sua onda quando o bicho pegar.

O que não dá é pra ficar se colocando como vítima das circunstâncias, como coitadinho e como alvo. Aí não... Chocolate é uma delícia, mas engorda, tomar uma cervejinha é uma delícia, mas engorda, acordar 5 da manhã faz muito bem à saúde, mas é extremamente complicado e assim vai... Tudo que é bom sempre tem um porém e é nesse porém que se encontra o problema.

Portanto, quem tomar uma decisão que arque com as consequências dessa, quem quiser sentir o prazer de experimentar o fruto proibido que se entenda com o dono do pomar depois.

Nos relacionamentos também é assim, seja com a família, amigos ou companheiro. O controle é nosso, sempre é. A intensidade da decepção é relativamente proporcional ao grau de expectativa depositada. Ou seja: alguém só me magoa ou me decepciona se eu permitir, e a intensidade dessa decepção também terá uma parcela de colaboração minha, parece presunção, mas não é! A matemática é simples. Você é o responsável pelas coisas que lhe afetam e de que maneira lhe afetam.

Eu já tomei minha decisão e seja o que Deus quiser! É melhor pagar pra ver no que vai dar. É melhor tentar e não dá certo, do que nem tentar e carregar consigo a dúvida dilacerante do que poderia, por ventura, ter sido e não foi, não foi porque você não tentou...

Coloquei o pára-quedas nas costas e pulei!

Arrisquem, tentem, errem, caiam, levantem, mas vivam! Como diz o poeta "A vida é muito para ser insgnificante!"

Beijos, pessoas!!

Verônica


terça-feira, 5 de abril de 2011

Homem Bom De Sexo!




(by Cinthya)

Homens e mulheres têm uma postura distinta também na hora do sexo e isso não é novidade para ninguém. Embora a finalidade dos dois seja alcançar o prazer, os meios para que isso aconteça são bem diferentes para um e para o outro sexo.

Para homens, normalmente (sem generalizar) o prazer é orgasmo e pronto. Para mulheres, diferentemente, o prazer vai desde o olhar, o toque, a música, o despir-se, o deitar-se, os sussurros (o que é pronunciado e como é pronunciado), as mãos deslizando na pele, enfim. O prazer da mulher depende de todo o conjunto e depende muito, mas muito mesmo de quanto tempo o homem tenha para ela (Tá, tudo bem! Existem as exceções!).

Acho incrível como alguns homens agem na hora do sexo. Clima quente, corpos juntos, ele frenético, alcança seu prazer e... e... e... Pronto! Levanta, pega uma cerveja, vem andando como se fosse o maior garanhão da terra, ego nas alturas, senta ao lado dela e fica a olhá-la, se achando “o tampa”, “o homem mais gostoso com quem ela fez amor”. E ela, coitada fica na vontade do orgasmo que não chegou e não chegou porque ele não teve paciência e nem maturidade para conduzir sua dama nesse caminho. Ele é Gostosão demais para lembrar que ela também precisaria sentir essa maravilhosa sensação de prazer alcançado.

Muitas mulheres (mas muitas mesmo) fingem um orgasmo que passou longe de existir. Fingem por constrangimento, fingem por medo de parecerem frígidas, e (pasmem!) fingem para agradar o parceiro. Eu já fingi orgasmos na minha vida, claro. Mas hoje eu não finjo mais. Se eu não o sentir, ele vai saber e se ele questionar eu repondo: “É. Eu não senti, não deu tempo!”. E aí sim, a sensação desagradável não será só minha, mas também dele que não teve competência/paciência para me fazer “chegar lá”.

Homens que nos lêem, por favor, não esqueçam que existe outro ser na relação, que o ato sexual entre um casal não é uma masturbação solitária onde você só se preocupa com você e ponto final. Conheçam o corpo de suas damas, conheçam seus pontos de prazer, explorem-nas, tenham a delicadeza de conduzi-las ao paraíso, deixem a relação sexual ser mais prolongada. Com essa parceria, as coisas se inovam, ficam mais interessantes, a imaginação flui e ninguém precisa mentir.

Elas agradecerão muito, a relação ficará mais gostosa e vocês se tornarão marcantes na vida delas. Creiam, a gente sempre lembra daquele cara que foi bom de sexo!








A Sonhadora, A Questionadora E O Bicho-Preguiça.


Saindo da aula ontem conheci um menina, a sonhadora, ela é prima de uma colega que estuda comigo e estava esperando a prima pra pegar uma carona.
Conversando com ela, me surpreendi. Minha colega de curso disse:
- Verônica essa aqui é minha prima, Fulana, está 'se ajeitando' pra casar. Daí perguntei: 
- Poxa que lega! Mas você não se acha muito novinha pra casar não? Quantos anos você tem?
Foi quando ela respondeu cheia de si, como quem possui a certeza do quer e não faz ideia do que isso signifique:
- Novinha que nada! Eu já tenho 22.
- Você trabalha com quê?
- Sou vendedora numa loja de peças íntimas
- Ah, legal! E seu noivo, tem quantos anos e trabalha com quê?
- Ele tem 24, mas no momento está sem trabalhar, não terminou o segundo grau, aí está complicado arranjar serviço, mas ele trabalhava no escritório do padrinho.
- Trabalhava? E não deu certo lá por que?
- Aqui em Petrolina é muito quente, você sabe, né?
- Sei... (com cara de desconfiada)
- Então, aí ele era ofice boy, mas ficar em cima de uma moto nesse sol de rachar ninguém aguenta aí ele pediu pra sair.
- Mas se ele está desempregado e você trabalha numa loja, como pensam em casar? Só seu salário fica complicado para manter uma casa, você não acha?
- Acho, mas por enquanto vamos morar num quartinho dos fundo que tem lá na casa da minha mãe.
- E vão  morar nesse quartinho até quando?
- Até sair uma indenização que a mãe dele está esperando, daí ela vai comprar uma casa e vamos morar com ela.
- Mas vocês não pensam em estudar, cursarem uma faculdade para conseguirem um emprego melhor? Ter mais grana, ter o canto só de vocês? (A essa altura eu já estava impaciente e tentando disfarçar a minha indignação)
- Pensar a gente pensa, mas.... (Como quem diz, mas a preguiça não deixa)
- Hum... Então, boa sorte para vocês! (Foi o máximo que consegui dizer para não parecer desagradável)

Porque minha vontade era dizer: Vai aquietar o faxo menina, com essa história de casar. Vai estudar e ter uma profissão para arranjar um emprego bacana, vai viajar e conhecer outros estados e outras culturas. Vai traçar metas de realizações pessoais e profissionais. Ah, e avisa ao bicho-preguiça que quando ele for chefe de família vocês não poderão mais viver à sombra da sua mãe nem da dele.
Mas  finalizei a conversa por aí. Tem certas coisas que eu não entendo mesmo. Preferi silenciar

Daí me pus a pensar, como uma pessoa, nos dias de hoje, pensa em casar sem ao menos fazer uma faculdade antes? Com o noivo desempregado e ela sobrevivendo de um salário do comércio. Com que perspectiva um casal inicia uma vida morando no quartinho dos fundos da casa da mãe dela para posteriormente irem morar numa casa comprada pela mãe dele? Acho até romântico essa história de "o amor não precisa de muita coisa e blá, blá, blá..." Mas na realidade isso não funciona. Me incomoda ver pessoas acomodadas, entregues á inércia.

Eu sei que não devemos julgar, nem questionar, nem nada disso... Mas não entra na minha cabeça, eu já disse aqui um vez e vou repetir, eu não entendo as pessoas que vieram ao mundo a passeio, eu não consigo compreender um ser humano que não tem perspectiva de vida, não tem sonhos e ambições de conseguir uma vida melhor. Não compreendo que vive por viver. A vida é tão mais que isso!

Desejei sorte ao casal, desejei mesmo do fundo do coração, é porque eles vão precisar de muita sorte para enfrentar as dificuldades da vida a dois com tão poucos sonhos, planos e projetos. Confesso que se eu pudesse teria aberto aquela cabecinha para colocar um pouco de juízo dentro. Será possível que ninguém disse a ela que casamento não é brincadeira? Será possível que ela não saiba que casamento já não é fácil em outras circunstância, imagina já começando assim? Bom, tem coisas que não podemos mudar.

Continuo desejando sorte, já que nem eles desejam muita coisa.

Boa semana, amores!

Verônica

domingo, 3 de abril de 2011

Ela é Gay, e Daí?


(by Cinthya)

Uma coisa que sempre me intrigou foi o fato de uma pessoa dedicar seu tempo em se incomodar com a vida da outra. Pessoas que vivem a observar, julgar, condenar as ações e atitudes das outras pessoas, achando que têm esse poder.

Certa vez eu estava na fila do banco, e a fila era "A Fila", tipo aquela que você sabe que passará a tarde toda presa a ela. Eu tinha esquecido de levar um livro e para não entrar em desespero eu fazia exercícios de interiorização, ficava a viajar em pensamentos até que um fato me chamou atenção. Uma senhora e uma jovem avistaram uma cadeira que se esvaziara e a jovem disse:

- Mãe, senta ali, esvaziaram a cadeira.

A senhora olhou para a moça e respondeu firmemente:

- Eu sentar ali? Você enlouqueceu. Olha quem está na cadeira ao lado.

- Mãe, por favor! Se a senhora não quer sentar sento eu.

- Nem eu e nem você. Não deixo filha minha se aproximar de gente desse tipo.

Eu confesso que aquilo me atiçou a curiosidade e eu virei para ver o que tinha de tão grave na cadeira ao lado.

Gente, eu quase infarto quando vi o motivo pelo qual aquela senhora estava tão apavorada: na cadeira ao lado da cadeira vazia tinha um casal de lésbicas que estavam sentadas, conversando como pessoas normais que são.

Eu olhei para a tal senhora com uma indignação tão grande que ela percebeu e se afastou um pouco de mim. A filha dela ficou extremamente sem graça com a atitude da mãe e tentou mudar o rumo da conversa.

Eu sempre tive um leque largo de amigos. E entre os amigos encontramos velhos, jovens, ex detentos, mães solteiras (eu sou uma), piriguetes, empregados, desempregados e, é claro, gays.

Tenho amigas que são lésbicas e eu sei o que elas sofriam com a ignorância das pessoas em relação a opção sexual delas. Algumas pessoas quando descobriram, simplesmente se afastaram, deixaram de andar com elas, deixaram de ligar e tornaram-se estranhas.

Certa vez uma delas chorando me disse:

- Poxa, o que tem de errado em mim? O que em mim me torna inferior às outras pessoas? Apenas o fato de eu amar uma pessoa do mesmo sexo? Caramba, isso é um detalhe. O sexo é um detalhe bobo se comparado ao tamanho desse amor que eu sinto. A escolha é minha, porque dói tanto nos outros?

Quando íamos a alguma festa e rolava uma música que fizesse parte da trilha sonora delas, elas apenas se olhavam, mas achavam melhor não se aproximarem muito por conta das outras pessoas e ficavam ali, sufocando o amor.

Aquilo me cortava o coração. Afinal que poder nós temos de julgar o outro? Baseados em que achamos que a nossa posição é a correta e apontamos o que é diferente de nós como sendo errado? O que nos faz achar que podemos inferiorizar uma pessoa pela cor que ela tem, pela classe social a que ela faz parte ou pela opção sexual dela?

É triste e inadmissível que no mundo avançado em que vivemos uma pessoa ainda choque outra pelo simples fato de ser lésbica, gay e andar com seu parceiro na rua, resolver assuntos de banco, cartório, escola e todas essas coisas que pessoas normais (como elas) precisam fazer.

Ninguém precisa achar que a opção sexual da outra pessoa é correta, mas é imprescindível que se respeite o próximo (e isso inclui as escolhas dele), porque a intolerância já causou mal demais para o nosso mundo.

Muita gente chegou para para me dizer, em relação às minhas amigas:

- Cinthya, você andando com Fulana e Beltrana. Você não sabe o que elas são?

- Sei sim. Além de minhas amigas, de serem minhas amadas amigas, de serem ótimas funcionárias, ótimas filhas, de pagarem os impostos delas, de pagarem a conta de supermercado e plano de saúde delas , elas são gays, e daí?

sábado, 2 de abril de 2011

Para Refletir e Apreciar

O texto a seguir é uma crônica do Thiago Solito. Um excelente texto que nos faz refletir e repensar sobre a maneira estamos levando nossa vida, até que ponto estamos nos tornando escravos da tecnologia e esquecendo de aproveitar a nossa própria companhia e até a companhia da pessoa que está ao nosso lado.


Logo abaixo e para fechar com chave de ouro essa semana agitada e polêmica onde foram abordados tantos temas delicados sobretudo direcionado a casais, deixo com muito orgulho o queridinho do Divã. O Chico Buarque - Trocando em Miúdos. Não que desejemos a separação aos casais problemáticos, longe disso! Nem achamos que essa seja a melhor solução, a intenção não é essa, mas não me ocorreu sugestão melhor de música. O que desejamos mesmo é que todos os corações sejam preservados e todas as dores minimizadas. O Chico é maravilhoso!


Deleitem-se, bom final de semana!

Verônica

Viagem Pra Fora
(Texto de Thiago Solito da Cruz, inédito)



Há não tanto tempo assim, uma viagem de ônibus, sobretudo quando noturna, era a oportunidade para um passageiro ficar com o nariz na janela e, mesmo vendo pouco, ou nada, entreter-se com algumas luzes, talvez a lua, e certamente com os próprios pensamentos. A escuridão e o silêncio no interior do ônibus propiciavam um pequeno devaneio, a memória de alguma cena longínqua, uma reflexão qualquer.

Nos dias de hoje as pessoas não parecem dispostas a esse exercício mínimo de solidão. Não sei se a temem: sei que há dispositivos de toda espécie para não deixar um passageiro entregar-se ao curso das idéias e da imaginação pessoal. Há sempre um filme passando nos três ou quatro monitores de TV, estrategicamente dispostos no corredor. Em geral, é um filme ritmado pelo som de tiros, gritos, explosões. É também bastante possível que seu vizinho de poltrona prefira não assistir ao filme e deixar-se embalar pela música altíssima de seu fone de ouvido, que você também ouvirá, traduzida num chiado interminável, com direito a batidas mecânicas de algum sucesso pop. Inevitável, também, acompanhar a variedade dos toques personalizados dos celulares, que vão do latido de um cachorro à versão eletrônica de uma abertura sinfônica de Mozart. Claro que você também se inteirará dos detalhes da vida doméstica de muita gente: a senhora da frente pergunta pelo cardápio do jantar que a espera, enquanto o senhor logo atrás de você lamenta não ter incluído certos dados em seu último relatório. Quando o ônibus chega, enfim, ao destino, você desce tomado por um inexplicável cansaço.

Acho interessantes todas as conquistas da tecnologia da mídia moderna, mas prefiro desfrutar de uma a cada vez, e em momentos que eu escolho. Mas parece que a maioria das pessoas entrega-se gozosa e voluptuosamente a uma sobrecarga de estímulos áudio-visuais, evitando o rumo dos mudos pensamentos e das imagens internas, sem luz. Ninguém mais gosta de ficar, por um tempo mínimo que seja, metido no seu canto, entretido consigo mesmo? Por que se deleitam todos com tantas engenhocas eletrônicas, numa viagem que poderia propiciar o prazer de uma pequena incursão íntima? Fica a impressão de que a vida interior das pessoas vem-se reduzindo na mesma proporção em que se expandem os recursos eletrônicos.





Trocando em Miúdos
 Chico Buarque

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
Aquela esperança de tudo se ajeitar

Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel

Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde




sexta-feira, 1 de abril de 2011

Meu Marido Tem Uma Amante Virtual


(by Cinthya)

Hoje temos e-mail de uma leitora que pede nossas opiniões sobre uma situação difícil pela qual está passando. Então, com a autorização dela (claro!) e mudando apenas alguns dados, publicamos seu pedido de socorro e espero que possamos ajudá-la de alguma forma.

"Me chamo Sandra, estou na casa do 30 e sou casada há 10 anos. Tenho 02 filhos com o meu marido e uma relação tranquila, um marido presente, embora muito atarefado com o trabalho. Eu também trabalho.
Pois bem, ultimamente tinha percebido que meu marido estava passando muito tempo na internet, nos horários que antes eram "meus". Ele só largava o computador depois que eu já estava na cama. Aquilo começou a me intrigar, mas sempre respeitamos a privacidade do outro. Isso era uma política nossa.
Certa noite eu entrei caladinha na sala onde ele estava ao computador. Ele achou que eu já estava dormindo, vim de ponta de pé e vi que ele estava no bate papo com uma mulher. Ele ficou tão nervoso ao me ver atrás dele que sequer conseguia minimizar a janela e eu pude ler um trecho do que eles conversavam.
A minha reação foi apenas chorar, sai de lá e não o deixei encostar um dedo em mim, não quis conversar, não quis ouvir qualquer explicação dele. Fui “dormir” no quarto das crianças e o deixei lá com sua "sujeira".
Mais tarde, ele me disse que nunca havia encontrado aquela mulher, que apenas "conversavam" pelo bate papo, mas que jamais havia tido um envolvimento físico com ela. Mas o que eu vi podia ser tudo, menos uma simples "conversa".
Nossa relação sempre foi forte, sem abalos, sem reclamações. De fato, fui pega de surpresa com essa situação.
Ainda não consigo deixar que ele me toque... Mas também não acho certo deixar meu casamento acabar por conta dessa história.
Estive lendo o blog de vocês e criei coragem para escrever e pedir ajuda... Sei lá... Alguma coisa, uma opinião.
Agradeço muito."


Sandra,
Decidi falar sobre o seu e-mail porque conheço pessoas que passaram pela mesma situação que a sua. Em uma das histórias, o casamento recém-construído foi por água abaixo. Os papéis eram o oposto de sua história, talvez por isso o perdão não tenha existido. Era uma história bonita, mas que não sobreviveu a esse "abalo".
No outro caso, o casamento já tinha uma longa história (assim como o seu) e os papéis eram os mesmo. Houve apenas um período de raivas, rancores, mas depois as coisas se acalmaram e a relação perdura até os dias de hoje, a confiança foi reconstruída e a história salvou-se.
É difícil opinar na vida alheia, principalmente em se tratando de assuntos do coração. Mas se você está nos pedindo uma opinião (e deixo bem claro que é OPINIÃO apenas) vamos lá:
Você deve ter lido os posts dessa semana e deve ter visto o meu ponto de vista em relação a traição masculina, pois bem. Você disse que o seu casamento nunca foi uma relação problemática, que a história de vocês tem alicerce firme, tem harmonia. Uma história de 10 anos... Dois filhos.
Sandra, só você sabe o tamanho do amor de vocês, só você sabe o que você sente por ele, a importância dele na sua vida. Só você sabe o que vocês viveram, dividiram e só você sabe se ainda quer continua a construir essa história, se ela (a história de vocês) é maior ou não que essa dor que você ta sentindo.
Tente identificar os sentimentos, classificá-los, tipo: decepção, medo, orgulho ferido, amor. Veja qual sentimento tem maior poder. Isso vai te ajudar. Observe o seu marido, escute o que ele tem para lhe falar. Você o conhece há muito tempo, sabe quando ele fala a verdade e quando mente.
Pense... Pense... Pense antes de decidir qualquer coisa. E lembre-se, a sua felicidade é o objetivo da sua vida! Mas ser feliz requer sabedoria e trabalho!
Um xêro e espero que nossos leitores também possam ajudá-la, afinal, envolvimento virtual caracteriza ou não uma traição?