sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ei, A Educação Mandou Lembrança!



(by Cinthya)

A educação deveria ser algo que se desenvolvesse de forma natural nas pessoas. Deveria ser algo nato (ou será que ela é, e as pessoas se desvirtuam no decorrer da caminhada?). Não me refiro a educação escolar, a diplomas, títulos. Não. Para mim o mais importante numa pessoa não é, nem de longe, o grau de instrução que ela traz.
Não há pessoa mais agradável e desejável do que a pessoa educada. A educação é fina. Aquela educação que a gente aprende em casa quando a nossa mãe diz “Acabou de comer? Retire o prato da mesa” ou “Não pegue esse brinquedo porque ele não é seu. Peça permissão primeiro.” E tantas outras coisas simples que vão fazer uma diferença imensa na formação da criança.
É incrível como existem pessoas mal educadas no mundo. Chega a ser lastimável porque eu acredito piamente que muitas mazelas poderiam ser evitas se as pessoas tivessem um pouco mais de educação, um pouco mais de gentiliza e consciência do coletivo em que vivem. Se cada um tivesse a certeza de que o mundo não é o seu quintal, ou ainda, que mesmo que o mundo fosse o seu quintal, deveria estar limpo e organizado.
O pai sai com a criança e compra dois picolés. O pai tira o papel do picolé e joga no chão. A criança, é obvio, copia o pai e faz o mesmo. E vai crescer achando que isso é correto, normal, afinal de contas o Herói de Sua Vida assim o faz. Sempre fez. E nisso surgem as pessoas no ônibus coletivo jogando espigas de milho pelas janelas, crianças fazendo xixi nas calçadas, com o consentimento das mães. Mães que, trocando as fraldas dos filhos, deixam a fralda suja ali mesmo, no chão. Seja na calçada, seja no restaurante, seja onde for. Não importa. Elas simplesmente não podem procurar o lixeiro mais próximo ou ainda colocar a fraldinha suja numa sacola para se desfazer dela quando em casa chegar. E as crianças vão crescendo dentro desses conceitos torpes.
O resultado de tudo isso são adultos sem a menor noção de espaço. Adultos indisciplinados, avessos a regras, “profissionais” difíceis de se adaptarem em empresas que exijam o cumprimento de normas internas. Pessoas que vivem para si próprio, e acham que o correto é tirar proveito da situação, sempre.  Sentem orgulho por serem tão “espertos”. Mas na verdade, não têm noção do tamanho de sua pobreza.
E não há nada mais lamentável do que um ser humano pobre de espírito. A falta de educação em casa, aquela educação de “bom dia”, “boa tarde, “boa noite”, “com licença”, “desculpa”, “por favor”, “obrigada”... Aquela educação de guardar o brinquedo depois da brincadeira, de calar quando os pais estão falando, de entender o que é limite e aprender a viver com ele. De saber ouvir um “não” e saber que ele é a resposta e pronto.... É essa a educação que faz tanta falta no mundo!
Por que um Doutor formado em Harvard que não pede desculpas por ter esbarrado em alguém, que estaciona o carro na vaga para deficientes, que falsifica documentos para tirar vantagem em algum negócio, que come hambúrguer e joga o resto no chão, que fuma em ambiente coletivo, que entra nos locais sem cumprimentar as pessoas, que vê um idoso cheio de sacolas e não oferece ajuda, que (tendo oportunidade) usufrui do dinheiro público em benefício próprio... Uma pessoa dessas, sinceramente, em nada vai ajudar a melhorar o mundo. Em nada.
O mundo precisa de pessoas educadas. As pessoas precisam de educação e isso começa em casa. Não com teorias e conceitos. A gente forma filhos com exemplo, limites e comprometimento. Que sejamos os melhores amigos dos nossos filhos.
Senhores Pais, pelo amor de Deus, cuidem de suas crianças! Por que, muito mais do que pessoas com diploma, o mundo precisa de pessoas com moral. Primeiro a moral, a índole, a educação (bons modos), o respeito ao próximo, os valores. Sem isso, de nada valerão os diplomas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Eu Morri e Continuei Vivendo...



Eu morri de rir quando mainha me contou uma façanha que ela aprontou na ultima viagem que vez. Ri até minha barriga doer e ao retomar o fôlego senti como se tivesse renascido. Como é bom libertar o corpo e a alma numa deliciosa gargalhada.

Eu morri de arrependimento quando eu recusei aquela viagem dos sonhos. Um final de semana em uma praia maravilhosa ao lado daquele cara que eu acreditava ser maravilhoso. Ganhei a vida quando descobri que na verdade tinha pulado uma fogueira. O tal cara não era tão maravilhoso assim e a viagem estava mais pra pesadelo que sonho.

Eu morri de orgulho quando minha amiga me contou que recebeu uma proposta de emprego de uma grande empresa e deixaria o emprego mediano em uma lojinha de pequeno porte no comércio local. Vivi para ver que as vezes é necessário recuar para poder avançar.

Morri de raiva quando presenciei uma das maiores injustiças da minha vida, (esse assunto merece um post) mas recebi uma lufada de vida quando o injustiçado deu a volta por cima e o injusto se arrependeu. As lições foram inúmeras.

Morri de pena quando tomei conhecimento que uma pessoa próxima está pondo fim em sua vida e em sua carreira brilhante, enveredando por um caminho sombrio e tortuoso e quanto mais se aproxima das trevas, se afasta da luz e a volta vai ficando mais difícil. Vou permanecer viva, agarrada a esperança de ver essa pessoa renascer.

Morri de vontade de comer aquelas guloseimas deliciosas e pôr abaixo todo esforço da dieta. Vivi e venci o desafio de não cair em tentação, morri de orgulho de mim mesma pela força e dedicação. Vivi para ouvir vários elogios.

Morri de gratidão quando alcancei uma graça que nem esperava. Deus é infinitamente maravilhoso comigo e por mais que eu não mereça Sua Misericórdia é grande. Então, surgiu em mim a necessidade de nascer de novo. Novos hábitos, nova postura, nova visão sobre a vida. Sinto como se uma nova vida tivesse sido dada a mim.

Ao longo desse caminho de morte/vida eu percebo que nosso renascimento é constante e intermitente. Descobri que a cada vitória uma nova chance de vida recebemos e a cada derrota, idem!

Quando morremos, matamos em nós muita coisa que nos atrapalham nesse processo de evolução. Matamos nossos medos, nossos preconceitos, nossas frustrações, nossas desconfianças...
Recebemos novas e intermináveis chances. Chance de começar de novo, chance de ver a vida por um outro prisma, chance de se arrepender, chance de pedir perdão, chance de perdoar...

Muitas mortes e várias novas vidas é o que eu quero para a minha vida.

Verônica

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

29 de Agosto


(by Cinthya)

Dos meus trinta e seis anos, apenas quatro eu vivi sem ela (pois é justamente essa a nossa diferença de idade) e, tenho certeza absoluta, que eu não era tão feliz. Nós somos as filhas do meio de uma prole de quatro filhos. O mais novo e o mais velho são homens e nós, além de termos nascido mulher (lá na região e na cabeça do meu pai, isso é uma desvantagem), ainda nascemos no meio, ou seja, mérito nenhum. Somos quase o nada do nada.

Também por isso nos tornamos parceiras, amigas, unidas. Nunca na nossa vida de irmãs chegamos a uma discussão, a um “bate boca”. Nunca ficamos de mal com a outra. Jamais existiram agressões físicas ou verbais entre nós. E nem somos tão parecidas assim! Temos muitas diferenças, muitas mesmo. Mas isso não é motivo para desavenças entre nós, pois desde muito cedo aprendemos a respeitar as escolhas da outra.

Nem tudo que eu faço ela aprova, nem tudo que ela aceita eu aceitaria. Mas temos a clara certeza de que somos, apesar de unidas, dois seres distintos, com vontades distintas, com medos distintos. Cada uma tem um sonho, cada uma tem uma meta e cada uma tem seus medos e sua bagagem. Entendemos isso e seguimos em frente, juntas.

Conheço-a muito. Basta que eu a olhe para saber que ela não está bem. Não precisa nem falar nada. Eu a conheço. Sei quando ela está inquieta, sei quando está feliz. E que sorriso lindo ela tem, aliás, o seu sorriso merece um texto à parte, sim. Porque quando ela sorri tudo ao seu redor recebe luz. Ela tem um sorriso largo, os olhos se fecham e a beleza dela aumenta ainda mais. Ela é linda!

Crítica, chata, organizada, ciumenta, desconfiada, ela sempre se dá bem em matérias exatas. Tem um raciocínio lógico muito apurado. É uma menina inteligente. Mas ela também é frágil e quando se dedica a alguém, faz isso de corpo e alma. Se sofre uma decepção, não é do tipo que esquece. Não, definitivamente, ela não esquece. E ai de quem decepcioná-la.

Tem sempre uma resposta na ponta da língua e não importa pra quem seja: o pai, o namorido, o chefe, não importa. Se a cutucarem, ela vai responder. Isso é certo. Ela é assim. Se a razão estiver com ela, não adianta, ela vai defender até o final. E, creia, ela não se cansa. É dura na queda.

Ela é a minha irmã amada e querida. Por vezes ela é minha filha, por vezes ela é minha mãe. Tudo o que é meu, é dela também. É a madrinha do meu filho. Não há frescura entre nós. Se existem outras vidas, tenho certeza que em todas elas nós estivemos juntas, porque o laço é muito forte. Tenho uma vontade imensa de protegê-la e brigo por ela, se preciso for.

Sempre nos divertimos, na riqueza e na pobreza. Se a gente sai junta, a gente vai se divertir, não importa se o dinheiro vai faltar, se a chuva vai cair. Não importa. Nós sempre achamos um jeito de dar risada, aliás, damos muita risada quando estamos juntas. A gente se entende.

Irmã, eu te amo e isso vai além, muito além de tudo que é palpável e/ou explicável.

Feliz Aniversário!

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Uma História de Amor


Eles estavam saindo do teatro quando os olhares se encontraram.

A troca de olhar intensa durou pouco segundos, o bastante para acender uma chama em ambos.
Puta que pariu! Que gata!!! pensou ele.
Nossa que homem incrível!! pensou ela.

Continuaram andando em direção ao estreito corredor que dava acesso a saída e vez ou outra um dos dois olhava.

Se ela olhar de novo é porque também quer. Que mulher gostosa, vou pedir o telefone dela.
O pensamento dele foi instantâneo.

Ele deve ter uns trinta e poucos anos, daria um excelente pai de família. Acho que teríamos filhos lindos. Ela não pôde segurar o sorriso, se imaginando vestida de noiva entrando na igreja para dizer sim àquele deus grego.

E assim eles continuaram a passos lentos se aproximando um do outro.

Mas como é que eu vou chegar nela? - Oi, me dê seu telefone? Ela vai me achar um mané. Preciso ser esperto, não posso dar bobeira. Mas como ela é gostosa... puta merda! Ele pensava preocupado.

Onde será que ele mora, do que ele gosta? Acho que ele é do tipo caseiro, ao menos é culto e vem ao teatro sozinho. Humm que homem interessante. Será que ele vai gostar de mim? Será q também me achará interessante e inteligente? Ela também estava preocupada.

Chegaram ao corredor central e se colocaram lado a lado. Os ombros dela na altura do braço dele. Não conseguiram sentir o perfume um do outro, mas a proximidade entre eles criava uma atmosfera envolvente.

Preciso bolar um plano antes da porta de saída. Se ela olhar de novo eu vou sorrir. Mas, se ela sorrir também eu vou dizer o quê? Já sei! Vou chamá-la pra tomar uma cervejinha e quem sabe poderemos conversar mais à vontade lá no meu cafofo. Eu acho que ela é do tipo safadinha. Conjecturava ele.

Nossa, como ele é alto. Daria um super namorado, do tipo protetor. Ele poderia me chamar de minha pequena. Ao sairmos ele bem que poderia me convidar para jantar. Poderíamos passear de mãos dados no centro histórico apreciando a arquitetura barroca. Poderíamos marcar algo para o final de semana. Eu o levaria para conhecer meus pais. Sonhava ela.

Mas, e se ela for do tipo grudenta? Se ela for daquelas que fica ligando, pegando no pé porque quer um relacionamento sério? Xiii é melhor não arriscar. Mulheres que vêm ao teatro são carentes e mal amadas. Se apegam fácil e dão um trabalhão. Além do doce que fazem pra dar no primeiro encontro. Esse negócio de vir ao teatro pra pegar mulher é a maior roubada. Tô fora. Essa foi a constatação dele.

E se ele for aquele tipo de homem que não quer namorar sério e só quer dar uma por curtição? Eu não quero isso. E se ele for do tipo ciumento e controlador? É melhor eu não pensar em nada. Se nos encontrarmos de novo, talvez poderemos conversar, mas hoje eu nem vou dar bola pra ele. Essa foi a decisão dela.

Chegaram ao final do corredor estreito, alcançaram a porta da rua e cada um seguiu para um lado da rua sem olhar para trás. Assim, eles viveram uma linda história de amor, em seus respectivos pensamentos e foram felizes para sempre em suas convicções.

Verônica

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ela é Venenosa



(by Cinthya)

Uma coisa que sempre me intriga e me deixa inquieta é me deparar com uma pessoa negativa, pesada, carrancuda. Gente que vive para reclamar de tudo o que tem e de tudo o que não tem também. Gente que enxerga primeiro as desvantagens, os defeitos. Gente que não sabe sorrir com a alma, que não sabe conquistar amigos fieis, leais e sinceros. Gente que vive à margem da felicidade. Gente azeda, amarga e, consequentemente, só.
Vez ou outra o destino me traz uma pessoa assim para o meu convívio diário e é um choque de realidade quando comparamos nossas vidas. Hoje eu tenho uma erva venenosa dessas no meu jardim e tem me dado trabalho essa convivência. Ora sinto dó dela por desperdiçar a vida com tanta coisa ruim guardada no coração, ora sinto raiva e vontade de dar uma sacudida pra ver se ela acorda e se livra de tanta maldade.
Tudo nela é maldoso. Se eu posto uma foto no Facebook ela lança lá um comentário maldoso, se alguém chega aqui e me abraça, me chama de amiga ou algo assim, ela solta o veneno dizendo “Quanta falsidade!”, se eu recebo elogios, ela acha um jeito de dar sua alfinetada, enfim. Ela é a negatividade em forma humana.
Ela não se acha bonita tanto quanto queria ser. Ela não tem a quantidade de amigos que gostaria de ter. Ela é amarga, definitivamente. Ela é amarga e seu fel consegue atingir quem está pelas redondezas. Ela tem uma áurea pesada, uma coisa negativa dentro dela, uma raiva, um rancor. Deus me livre!
Se ela vê alguém bem, a inveja se manifesta imediatamente nos seus comentários envenenados.  A felicidade alheia a incomoda e isso me chama atenção. Ela fica inquieta quando vê alguém feliz. E tenta, de todas as formas,provar para essa pessoa feliz que a felicidade não existe. Que tudo não passa de ilusão.
Os casamentos dela não deram certo e por esse motivo ela critica o casamento alheio. Amaldiçoa mesmo. Outro dia “bateu boca” com outra colega que disse ter um marido fiel. O clima ficou pesado, tenso e eu tive que intermediar com uma brincadeira para que a coisa não ficasse mais séria. Poxa! Eu sou muito desconfiada quando o assunto é fidelidade masculina, mas não vou discutir com uma pessoa casada que acredita na fidelidade do marido. Cada um pensa de um jeito. O importante é estar feliz! Essa é a finalidade, o objetivo.
Ela é venenosa, amarga, mal resolvida. Ela vê maldade em tudo. E é uma pena que uma pessoa desperdice seu tempo e sua vida empenhada em não ser feliz. Sim, porque com essa atitude ela pode ser tudo, menos uma pessoa feliz. Quando a gente perde mais tempo se preocupando com a vida dos outros, acabamos não dando à nossa vida o zelo que ela merece. E assim se cultiva um campo fértil para inveja, maldade, infelicidade.
Convivo com ela, mas sempre tenho cuidado para não deixar o veneno respingar em mim. Eu sou do tipo que opto pela felicidade.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ela Se Acha



(by Cinthya)

É. Definitivamente não tem pra ninguém. Quando ela chega os holofotes se voltam para ela. Quase que automaticamente ela atrai os olhares, as pessoas, os interesses. Ela tem uma sabedoria de vida adquirida durante anos de observação e vivência. Ela aprendeu, com a vida, a ouvir, a calar, a respeitar sempre a opinião do outro, ainda que essa opinião se choque com a sua. E com isso as pessoas acabam por gostar de sua presença.
Ela foge de julgamentos e busca entender sempre os motivos que levam as pessoas a tomarem determinado rumo na vida. Ela mede suas ações por saber que as reações são certeiras e rápidas. Ela sabe o que não quer pra si e evita, com todo seu empenho. Não costuma fugir da responsabilidade. Não costuma reclamar muito do que não tem. Prefere agradecer pelo que recebeu.
Ela é do bem. Tem seu estilo próprio, tem personalidade marcante, tem uma autoestima nas alturas. Ela é alto astral, é intensa, é inteira. Ela é destemida, é resolvida e tira leite de pedra. Quando quer algo, corre atrás, vai onde tiver que ir, mas consegue. Quando ela acredita em algo, vai até o fim para que seu desejo se concretize. Ela é força.
Espontânea, ela adora deixar os homens sem jeito. Dona da situação, ela não se intimida, mete a cara e faz acontecer. Se ela quiser, vai atrás. Se não quiser, a vaca pode tossir que ela não cede. Se a festa está boa ela dança e bebe, se a festa está ruim, ela bebe e dança, e acaba descobrindo que não existe festa ruim que não possa ficar boa.
Ela é mais ela em qualquer situação e mesmo assim, ela não passa por cima de ninguém. Honesta com os seus valores, fiel aos que lhe cercam, ela encanta pela sua verdade. Não gosta de brigas, de desunião, de descaso. Não admite que lhe pisem nos calos. Ela simplesmente não permanece na situação, se não estiver se sentindo bem. Não admite viver de aparências. Escolheu viver para si e não para ser o que os outros esperam que ela seja. Narciso perderia o espelho para ela. Ela vive em lua-de-mel consigo. 
Não prende ninguém em gaiolas e, com a mesma verdade, não se permite ser presa. Alma livre, ela voa alto. Fica enquanto se sentir bem, depois busca novos ares. Ela gosta de equilíbrio, mas sempre consegue desestruturar as bases alheias. Ela mescla enigma e clareza numa mistura quase que enlouquecedora. Ela seduz.
Em verdade, ela escolheu ser feliz. E é.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Vive la liberté!



Era uma tarde quente de setembro, eles estavam num campo, o que mais parecia um imenso jardim... O sol acariciava a pele de ambos. Eles eram só sorrisos. O amor que emanava deles era lindo e uma delicia de sentir.

Foi então que ela ouviu um barulho na porta que lhe despertou do seu devaneio, estava lembrando dos momentos bons que tinham vivido juntos. Ela estava deitada, fitando o teto, as persianas do quarto estavam fechadas e ela não sabia se ainda era dia, ou se já era noite. Não sabia se tinha dormido, ou se esteve o tempo inteiro acordada. Ela estava numa espécie de transe.


Olhou em volta, sem se levantar, e percebeu o ambiente estava vazio. Ele foi embora. O perfume dele ainda estava no ar e o chaveiro pendurado na porta ainda balançava. Ele se foi há pouco tempo. Sentiu uma coisa estranha dentro dela, um aperto na barriga. É agora que eu vou chorar - Ela pensou. Segundos depois percebeu que era a barriga que roncava. Um protesto por várias e várias horas sem receber alimento. Que estranho, eu não sinto a mínima vontade de chorar - constatou com espanto.

Levantou cambaleando e se dirigiu à cozinha, durante o breve trajeto foi imaginando o que queria comer. Um hambúrguer!! Um sorriso travesso brotou em seus lábios. Então se lembrou que não tinha carne de hambúrguer em casa. Talvez um miojo? Não tem miojo também! Sua frustração era visível. Pro inferno com a dieta! Vou pedir uma pizza. Se movimentou graciosa e desesperadamente até o telefone. Pedido feito. Missão cumprida. Agora é só esperar.

Depois do pedido feito, decidiu tomar um banho. Já no banheiro, percebeu que ele havia esquecido uma camiseta. Ainda estava molhada de suor consequência do treino recente. Ela sentiu uma vontade incontrolável de agarrar-se àquela pequena peça que tanto lembrava ele. Segurou a camiseta com as duas mãos e inspirou profundamente. Um cheiro forte e cortante de suor e saudade invadiu suas narinas e imediatamente se arrependeu de ter feito. Arremessou a camisa depressa no cesto de lixo.

No box, tirou a calcinha. Lavou-a com sabonete e a pendurou no chuveiro. Ele morreria se visse - o pensamento lhe ocorreu de imediato. Tomou um demorado e relaxante banho. Oh, droga! Esqueci a toalha. Foi do banheiro ao quarto deixando um rastro de água por onde passava. Ele também enlouqueceria ao me ver fazer isso. Foi então que ela percebeu o quão neurótico, obsessivo por poder e controlador ele era. Decidiu que faria tudo ao contrário. Só pra sacanear.

Vestiu sua calça de moletom e uma camisa folgada que estava esquecida no armário. Enquanto se vestia começou a lembrar-se de tudo que negligenciara em nome desse amor. Lembrou-se de tudo que teve de abrir mão e das pessoas que teve de se afastar. Quanto sacrifício para viver uma história com um homem autoritário, controlador e ditador. A primeira pessoa de quem se lembrou foi de sua mãe. Decidiu ligar pra ela.

- Alô, mãe?
- Oi, Filha! Que bom ouvir sua voz. Como você está?
- Eu estou bem, mãe! Ele foi embora.
- Oh, filha... Eu sinto muito! Você tem certeza que está bem?
- Tenho sim, mãe! Sinto-me aliviada. Não chorei e nem sinto vontade. É estranho, mas eu me sinto liberta. vou visitá-la no final de semana. Te amo, mãe!
- Eu também te amo, filha. Estou com saudades! Beijos e fique bem.

Não demorou muito e ouviu o interfone.

- Pois não?
- Entrega de pizza para a senhora - disse a voz anasalada do outro lado da linha
- Ah, pode subir.

Seus olhos brilharam ao avistar aquela pizza enorme, com aquele cheiro maravilhoso e o queijo derretido. Lembrou-se das dietas rigorosas a qual se submeteu, em busca do corpo perfeito para agradar o amado. Lembrou-se também das horas de treino, das corridas, suplementos e a quantidade de verduras que teve que ingerir. Encarnar a "Geração Saúde" não fora uma tarefa fácil, mas ela se esforçou. A obsessão dele por um corpo bem moldado, músculos rígidos e abdômen batido não conhecia limites. Era quase um treinamento militar.

Pegou sua pizza e sentou-se em frente a TV. Dexter! Que saudade! Como alguém pode não gostar de Dexter? É simplesmente genial. Ele não gostava de Dexter - ela lembrou. Depois de falar com a sua mãe, comer o que gostava, assistir o que queria ela se sentiu inundada por uma sensação de liberdade.

Percebeu que estava com saudade dela mesma e de tudo que deixou de ser. Ficou feliz em ter seu espaço de volta. Retomar seus hábitos e não se sentir pressionada. Nem obrigada a fazer o que não queria. Celebrou o dia mais feliz de sua vida, até então. Esse é apenas o primeiro - foi seu ultimo pensamento antes de adormecer.


Verônica