quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Uma Vida Baseada em "Quantas Curtidas?"



(by Cinthya)

O valor que damos às redes sociais despertou em nós algo que enxergo como sendo negativo e perigoso. A super exposição e a necessidade de buscar aprovação alheia, de despertar a inveja nos outros, de provar a nossa “felicidade” não tem limites. Vale tudo para estar na mídia. Vale até mesmo apostar em relações doentes para ter um status de “relacionamento sério”, como se isso fosse um tipo de certificado de qualidade que a gente expõe cheio de orgulho.

E percebo então que o importante não é satisfazer uma necessidade minha, um sonho, um desejo, uma vontade de construir um relacionamento embasado no companheirismo, na afinidade, no respeito, no amor. Não, não é isso. O que importa é que as pessoas vejam que eu tenho alguém, que encontrei um par, que não estou sozinha, que terei companhia para as selfies. Aliás, minhas selfies agora estão completas. Sempre sonhei com selfies completas.

Quantas curtidas? Quantos comentários? Quanta inveja despertarei nas “inimigas”? Afinal, eu tenho alguém. E ele é o “boy magia” do memento, a “coca-cola mais gelada do freezer da humaninde” (como diz meu professor de Antropologia), ele é o “Crush” (ainda dou risada com esse novo termo) que todas sonham ter. Mas ele é meu.

Então, se passamos uma hora juntos, dessa uma hora pelo menos 30 minutos são dedicados às nossas selfies, pois, preciso postar minha felicidade, preciso que as pessoas vejam que estou bem, que minha vida está ótima, que problemas não me visitam mais. Penso mesmo que problema é pros fracos, eu vivo é bem.

A academia não é mais um lugar onde vou praticar exercícios. Não. Isso é coisa do passado. A academia serve para desfilar minhas malhas caras, meu tênis importado. A academia também serve para cultivar minhas formas perfeitas, para idolatrar cada centímetro de massa muscular. E, claro, para fazer selfies. Selfies que vão provar por A+ B que além de ter um crush eu também tenho um corpão, e uma malha cara pra caralho. Sou feliz e vou postar mesmo essa felicidade. Quantas curtidas? Quantos comentários?

A viagem que fizemos foi perfeita. Durou pouco, mas tudo foi perfeito. Viagem perfeita, com o par perfeito, no lugar perfeito. NADA deu errado. E, claro, tiramos muitas selfies para comprovar. Acho legal mostrar que tenho um crush, um corpão e que ainda viajamos juntos numa viagem MARAVILHOSA. E que venham as curtidas e que venham os comentários.

E nem falei do trabalho, do orgulho que tenho em ter um emprego dos sonhos. Coisa que muita gente gostaria, mas poucos conseguem. Então, vou fazer selfies aqui também e vou postar para todos verem que eu, além de tudo o que já mencionei, também tenho um emprego que é muito legal. As inimigas piram com o meu sucesso.

Vou levando as coisas dessa forma e um dia me dou conta de que aquele vazio continua lá, porque fotos, roupas, corpão e viagens não preenchem os anseios da alma. Mesmo as quinhentas curtidas e mais de cem comentários não conseguem fazer aquecer o lugar mais profundo de mim, aquele lugar onde eu vou quando deito a cabeça no travesseiro.

Daí eu percebo que tenho vivido uma vida que talvez nem seja minha. Que tudo o que eu faço, faço para dar satisfação aos outros, para mostrar, para expor, para angariar curtidas e aprovação alheia. Que não curto o momento, que não relaxo, que não me permito ser o que eu sou de fato. Estou o tempo todo procurando provar para os outros que gozo de uma felicidade que, na verdade, não existe. É uma farsa. É uma ilusão. E isso é muito perigoso, isso nos torna pessoas artificiais, que levam uma vida que não é sua, que não se conhecem profundamente, que não criam laços sinceros, que não enxergam nada além de seu próprio umbigo. Nos tornamos individualistas, egoístas e com a falsa ideia de sermos perfeitos, numa vida perfeita.

Quando a realidade bater à nossa porta (e isso vai acontecer) a gente acorda e se deprime, porque nada do que assumimos como nosso, de fato, é nosso. Por que eu preciso tanto que os outros vejam a minha vida? Por que eu preciso tanto dessa exposição? Por que eu preciso das curtidas e comentários? Por que eu tento sempre provar que estou feliz? Por que eu faço de tudo para viver a vida que vá agradar aos outros e não a mim?


Um dia estaremos a sós com nós mesmos e, então, poderemos começar a viver a vida que nos pertence. Sem se preocupar tanto com o que pensam e com o que falam. Acho que felicidade começa assim. Começa quando deixamos de buscar aprovação dos outros e passamos a estreitar nossa relação com a nossa consciência. Assim vamos percebendo que felicidade não tem ligação com o crush, com o corpão, com a malha cara... Felicidade é algo mais sutil. Não tem forma, não tem rosto, não tem preço (e não requer mega exposição, muito menos "curitdas" alheias).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Espelho Me Disse

(by Cinthya)

Lara sempre teve sua imagem associada a um belo sorriso, uma boa companhia, profundas gargalhadas e leveza. Creio mesmo que era um dom que ela tinha essa capacidade de dar leveza à tudo. Por muitas vezes, quando algum problema me tirava o sono e criava em meu estômago aquela inquietação, eu procurava a Lara para conversar. E, era incrível, como ela conseguia fazer-me crer que aquele problema imenso não era nada mais que um pequeno contratempo e que muito facilmente poderia ser solucionado.

Ela era o tipo de pessoa que não se apegava à dor, pelo menos não da forma que nós mortais, costumamos no apegar. Lara entendia a dor como algo até mesmo belo. Dizia que “a dor lapida a alma” e por isso era indispensável para nós, seres em evolução. Porém, não era preciso ver a dor como essa coisa monstruosa que nos definha. Não. A dor não precisava ser vista assim.

Reclamar da vida? Nunca ouvi reclamações vindas da Lara. Ela sempre tinha um pensamento que vestia lógica na situação conturbada que vivenciava. Os fatos atuais eram a colheita de um plantio pretérito. E se tinha algo que Lara fazia com muita precaução era justamente esse plantio. Escolhia à dedo as sementes a serem plantadas, pois gostava de harmonia e sorrisos. Lara era incrível!

Aprendi com ela que existem outras infinitas formas de ver uma situação. Aprendi que não sou o centro do universo, que meu problema não é maior do que o seu que me lê nesse momento, por exemplo. Lara me fez entender a responsabilidade que tenho com a minha vida. Que reclamar dos meus problemas não os resolverá, muito pelo contrário, só acentuará e intensificará sua ação sobre mim.

Por muitas vezes me perguntei “será que ela é desse mundo?”, pois sempre achei incrível a forma que ela tinha de encarar a vida. A disponibilidade em ajudar, em escutar, em abraçar, em silenciar, em amar.  Lara ensinava pelo exemplo. Jamais se perdeu naquela coisa de “faça o que eu digo e não faça o que eu faço”. Lara se empenhava em ser reta. Acreditava na vida. Sorria pra vida. E a vida sorria pra ela.

Sinto saudade da Lara. Sinto muita saudade dela. Quando vejo os problemas se agigantando, paro e penso em tudo o que ela me ensinou. Procuro rápido um outro ângulo para enxergar a situação antes que o desespero apareça. Antes de tratar alguém, penso como eu gostaria de ser tratada, lembro da reciprocidade tão peculiar à Lara, lembro da empatia que fazia dela um ser tão iluminado. Lara sempre soube sentir a dor do outro.

Hoje parei em frente ao espelho enquanto fazia minha maquiagem, mirei meus olhos para acertar o traço do lápis e, por um instante, percebi que ela ainda estava lá. Por um instante ainda ví aquele brilho. E ouvi mesmo ela sussurar com aquela voz tão doce “não esqueça que eu sou você. Se não está me vendo, já sabe o que fazer, né? Muda o ângulo!”.


Sorri. Ressurgi. Segui.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016


À sombra do medo
(by Cinthya)

Estava no meu trabalho, quando o celular toca e vejo o nome da pessoa que faz o transporte escolar do meu filho. Isso já foi o bastante para que eu sentisse a presença de um frio na barriga. Olhei para o relógio, era meio-dia, atendi a ligação já me sentindo suspensa do chão. Queria ouvir tudo, menos o que eu ouvi: “Cinthya, eu não encontrei o Pedro na escola. Procurei em todos os locais e não o encontrei.”

Eu desliguei o telefone e já não consegui processar muita coisa, levantei para tentar ligar para o meu irmão que seria a pessoa mais próxima geograficamente da escola naquele momento.  Não lembrei o número dele na hora, não lembrei como captar linha para fazer a chamada. Eu já não raciocinava. Consegui. Controlei o choro e a voz, para não assombra-lo e contei sobre a ligação. Antes que eu pedisse, ele já disse: “Estou indo lá agora!”

Lembrei-me de outra mãe de um coleguinha do meu filho que busca o filho na escola. Consegui falar com ela e contei o que estava acontecendo. Ela estava chegando no colégio e já se empenhou em procura-lo também. Eu chorava, e ficava tentando pensar na possibilidade de ser apenas algum mal entendido e que logo se resolveria. Mas o pensamento de “’ele’ pegou meu filho também!” era mais forte.

Nesse tempo, eu ligava para a escola e não atendiam. Como trabalho na zona rural, tive medo de me deslocar pra lá e ficar sem sinal telefônico por um tempo. Daí a pouco a mãe do coleguinha dele me liga pra dizer que o filho dela falou que o Pedro sentiu dor na garganta e depois do recreio não voltou pra sala. Ela já desesperada disse para eu ir pra escola.

Depois que eu ouvi isso, não ouvi mais nada. A parede me segurou e eu senti a maior dor do mundo até então. Por que eu só pensava o pior. Coloquei meu rosto entre as mãos e disse: “Pai, o Senhor quis levar meu filho?”. E eu chorei, meu corpo sacudia.

Nesse tempo, o meu irmão estava já na coordenação da escola, quando foi informado que “a mãe” do Pedro o havia levado. Ele se desesperou mais ainda. E já ia tomar outras medidas quando verificaram direito e viram que a avó o havia buscado.

Meus amigos do trabalho já estavam me conduzindo ao carro para me levar até a cidade, até a escola, e eu tentava expulsar da mente a imagem do meu filho com uma fraca cravada nele, dentro de uma sala abandonada. Foi quando meu celular tocou e era a minha mãe dizendo que a escola havia ligado pra minha casa porque o Pedro não estava passando bem, e minha mãe foi busca-lo, esquecendo-se de avisar ao responsável pelo transporte e a mim.

Em outros tempos, eu teria raciocinado e iria supor que, se ele estava doente e saiu da sala, a escola teria ligado pra minha residência e minha mãe teria ido busca-lo, como já aconteceu outras vezes. Porém, depois da noite de 10 de dezembro de 2015, eu não tenho mais paz em nada relacionado à segurança do meu filho. Eu vejo o carro do transporte escolar sumir na esquina e oro a Deus para que meu filho volte pra mim, vivo, bem e feliz como deve ser toda criança.

Por cerca de 20 minutos, não sei bem quanto tempo durou aquela agonia, eu provei o sabor horrível do medo, da impotência e do desespero.

Não há um dia, nem uma tarde, nem uma noite na minha vida desde aquele fatídico 10/12/2015 que eu não me coloque no lugar da mãe de Beatriz. Não há um único dia que eu não ore por aquela família, que eu não sofra imaginando a dor que é tudo isso.

O que eu vivi foi resolvido em 20 minutos e não passou de informações desencontradas. Infelizmente com a Beatriz não foi assim. O que a família vem passando, se arrasta por 74 dias e as repostas não chegam.

Estamos todos vulneráveis. Estamos todos expostos. Aconteceu com a família do professor Sandro, pode acontecer com a minha, com a sua família. Pode acontecer com o seu vizinho, com seu primo ou tio. Pode acontecer com seu amigo. Pode acontecer com o meu filho, com o seu filho.

A falta de resposta no caso de Beatriz tem um impacto muito grande na sociedade. Eu, pelo menos, vivo assombrada, não tenho paz, vivo numa ansiedade doentia, um medo constante, uma sensação horrorosa de que a qualquer momento meu telefone poderá tocar me trazendo notícias que eu nunca quero receber. E isso não é vida. E isso não é drama e nem exagero meu. O meu filho também tem sete anos, também nasceu em fevereiro de 2008, também estuda numa escola de base religiosa, também é dócil. Se aconteceu com Beatriz, pode acontecer com Pedro ou com qualquer outra criança.

Nós temos um(a) assassino(a) muito perigoso solto e impune na nossa sociedade. E isso, por si só, já tem nos matado aos poucos.

Não é possível que num evento com tantas pessoas, NINGUÉM tenha visto nada. Não é possível isso. Pelo amor de Deus, não tenham medo de denunciar. Veja a responsabilidade que é poder contribuir com a solução desse caso e não o fazer. Não espere acontecer de novo. Denuncie.

Como disse o Prof. Sandro, nada vai trazer Beatriz de volta. Mas as autoridades competentes devem a esses pais a solução desse caso. Devem à sociedade a solução desse caso. Se não foi possível oferecer a segurança preventiva, que não meçam esforços em identificar, encontrar e deter esse assassino(a).

Não esperem acontecer de novo. Pelo amor de Deus, não esperem acontecer de novo.



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Seres Humanos Impermeáveis



Tirando a poeira dos pensamentos, depois de um longo período infértil, sem conseguir juntar as palavras, me pus a pensar sobre a vida, sobre o cotidiano, analisar com mais cuidado as minúcias do que me cerca e consegui notar a impermeabilidade sentimental, tanto minha quanto das pessoas que me cercam. A frieza e a indiferença são tantas, que às vezes até me pergunto: onde foi parar aquela romântica e sonhadora que fui um dia? Como diz Adriana Calcanhoto “Eu não moro mais em mim”.
Eu sinto como se estivéssemos envolvidos por uma camada protetora onde nada nos atinge, nada nos toca, nem a dor, sobretudo a dor do próximo, nem o amor, mais ainda o amor ao próximo. É como se nós tivéssemos nos tornado zumbis, alheios ao que acontece à nossa volta, indiferentes à dor e ao amor. As pessoas negam e rejeitam os sentimentos e as sensações e eu, sinceramente, não consigo entender o porquê.
É fácil comprovar tudo isso que estou falando, basta um olhar mais atento ao nosso redor, aos acontecimentos banais do dia a dia. Nas rodas de amigos ninguém conversa mais com ninguém, todos estão mergulhados no universo dos seus smartphones. Até nas mesas de bares e restaurantes. Grupo de pessoas de cabeça baixa, casais separados pela tecnologia, cada um no seu mundo virtual, dando atenção a quem está a quilômetros de distância esquecendo quem está ali, bem na frente. O “bom dia” morre na boca semi aberta, o sorriso não chega a ser concluído, sequer se propaga. Os olhos sempre baixos e indiferentes nos torna cada dia mais distantes do nosso próximo. Sem trocadilhos.
Como nômades, vivemos uma peregrinação em busca da terra prometida, em busca da leveza tão sonhada, do amor protetor e acolhedor tão desejado. Essa busca torna-se cansativa e improdutiva e nos faz andar em círculos, sem sairmos do lugar. Porque queremos, mas não fazemos nossa parte para conseguir. Buscamos, mas não sabemos ao certo o quê e pra quê. No meio dessa procura, percebemos o quão desviados estamos do nosso caminho e como estamos perdidos no labirinto do egoísmo, da indiferença e da amargura.
É triste, na verdade é bem triste, saber que trabalhamos há anos numa empresa, com dezenas de pessoas onde passamos oitenta por cento do nosso tempo, convivendo com elas diariamente e perceber que ao sairmos contaremos nos dedos de uma mão, e ainda nos sobrarão dedos, pessoas que poderemos chamar, verdadeiramente, de amigos, pessoas que traremos para nossas vidas.
Espero que minha tristeza tenha prazo de validade e que esse prazo vença logo. Espero que eu consiga me livrar da amargura e propagar sorrisos. Me despir da couraça que blinda meus sentimentos e transpor as barreiras que me separam das pessoas que amo, ou que um dia amei. Quero deixar um rastro de alegria e sentimentos bons no caminho por onde passar. Ainda que não tenha êxito na minha luta, ainda que não consiga deixar rastros fortes, se conseguir, ao menos, arrancar e dar boas risadas, compartilhar de alguns momentos de carinho verdadeiro, pra mim, já terá valido a pena.

Verônica

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O Poder do Perdão


Se formos procurar na internet ou nos livros, acharemos uma infinidade de histórias sobre o perdão. Li várias. Me emocionei com muitas delas. O que mais me chamou a atenção foi o ponto em comum que encontrei em todas essas histórias: a força de quem perdoou.

O ato de perdoar tem muito pouco de altruísmo e muito de força, bravura e superação. Quem perdoa, descarrega uma bagagem pesadíssima e passa a seguir mais leve, leva uma vida mais saudável. Quem consegue exercer o perdão, de verdade, deixa de ser vítima e passa a ser protagonista da própria história. Poderia citar várias e fazer um texto quilométrico, mas vou contar três histórias de perdão, completamente diferentes, que prenderam demais a minha atenção.

Vi a história da moça, que é famosa e casada com um moço, também famoso, e esse moço foi flagrado numa pulada de cerca, aos beijos com uma anônima numa noitada dessas da vida. A esposa traída ficou calada, sem fazer pronunciamento nenhum até quando achou que deveria. O marido traidor foi a público se desculpar e dizer que eles atravessariam essa fase juntos. A esposa, por sua vez, poderia ter vestido a fantasia de vítima das circunstâncias e ter pousado de coitadinha, afinal, o momento era propício. Mas, para a surpresa de todos, inclusive a minha, ela pediu que os santos e canonizados guardassem suas respectivas pedras porque as pessoas erram. Encerrou o assunto assim, com essa leveza e naturalidade, apesar da humilhação que sofrera. Hoje, seguem tranquilos e aparentemente em paz.

Outra que ficou marcada na minha cabeça, foi a história da mãe de um rapaz de 25 anos, eles tinham uma padaria no interior de São Paulo, e num fatídico dia, ao encerrar mais um expediente, um assaltante invadiu o comércio deles e atirou no rapaz. Justamente naquela semana que tinha tudo pra ser especial. Seria a formatura do filho mais velho de uma mulher que tinha ficado viúva aos 30 anos. Foi a mãe, quem recebeu o diploma do filho morto dias antes da colação de grau. De todos os sonhos e planos de uma nova vida, ficaram apenas a dor e a saudade. Aquela história poderia ser mais uma entre tantas que existem por aí. A diferença é que a mãe perdoou o assassino do filho, ele foi preso, segue preso até hoje, e, além disso, passou a ajudar a família do mal feitor que deixou uma esposa e dois filhos pequenos desamparados. Para esse ato, a mãe justifica apenas que, o ódio não trará seu filho de volta, e as crianças não têm culpa da monstruosidade que o pai cometeu. Eu não tenho palavras para dizer o que acho dessa mãe guerreira.

Em setembro de 2013 um músico, não tão famoso, de uma banda não tão famosa, pôs fim na própria vida. Mas, o que mais choca nessa história é que esse ato ele cometeu quando sua bela esposa – que já havia perdoado uma traição dele, tempos atrás – estava grávida de alguns meses da primeira filha deles. A comoção foi geral, e todos se perguntavam como ele teve coragem de fazer isso com a própria vida e deixar a esposa grávida. O falecido foi acusado de egoísta, covarde, imaturo e muitas outras coisas. No velório do grande amor de sua vida, a esposa limitou-se a dizer: “eu te perdoo, meu amor!” Gente, isso foi lindo! Ela podia ter sentido raiva e ter compartilhado da opinião de todos, mas não. Ela perdoou a atitude do marido e seguiu em frente. Leve e em paz. A bebêzinha deles nasceu e está crescendo num lar saudável e sem a sombra do ressentimento, ou de qualquer tipo de mágoa.
Essas e tantas outras histórias a gente vê por aí sobre o perdão e ao ler-las eu só pude concluir uma coisa: Falta muito para que eu me torne um ser evoluído. Como eu preciso melhorar no quesito de superação. Eu não consigo perdoar, eu não tenho força suficiente para seguir em frente leve e feliz. Um psicanalista da USP afirma que “é importante não confundir perdão com masoquismo. Um perdão barato não é transformador, ao contrário, só aprisiona e mal acostuma.” O problema do perdão é que a vítima nunca se sentirá quite com o agressor. Mas, para viver em paz, só resta a quem sofreu superar o ocorrido. Perdoar não é esquecer, ledo engano de quem pensa assim. Perdoar é seguir em frente sem se deixar abater com o ocorrido, perdoar e não sentir mágoa, ou raiva ou a necessidade de um revide. Perdoar, é ver e deixar a ferida cicatrizar.

Gostaria muito de dizer que sou uma pessoa que consegue perdoar, que sabe virar a página e que sabe descarregar a bagagem da mágoa, mas não sei, não consigo e não supero. Carrego feridas abertas que insistem em não fechar, que ainda doem e latejam. Não posso afirmar que sei perdoar, porque dos inúmeros defeitos que possuo, a hipocrisia não está na lista.

Eu sou rancorosa, eu não esqueço, não perdoo e não consigo seguir em frente. Dos raríssimos desafetos que tenho, só um me invade mais do que eu gostaria. A raiva que sinto me faz mal, a mágoa que carrego é pesada e a tristeza que sinto me toma, ao lembrar-me do ocorrido, minam minhas energias. Queria ser diferente, queria poder perdoar, ainda que não esquecesse, queria poder conviver em paz. Mas, não consigo!

Meu desejo para o ano que se inicia, é que eu consiga evoluir como ser humano. Quero perdoar meu desafeto. Quero seguir em frente sem mágoa, sem rancor, sem raiva. Quero viver a plenitude da paz! Quero usufruir do prazer de uma vida leve, sem sombra do passado. É o que eu desejo a todos vocês que me acompanham e que param pra ler o que eu escrevo. Desejo o encontro com a felicidade plena.
John Lennon dizia que a felicidade vem quando a gente está distraído. Já Charlie Chaplin dizia que cada dia que não tenha alegria é um dia perdido. Não quero perder nenhum dia de 2015 e quero estar distraída o suficiente para esbarrar com a felicidade.

Desejo que o verdadeiro espírito natalino nos cubra e nos renove!


Que o ano que se inicia seja repleto de força e entusiasmo! Que ele seja como um caderno com muitas folhas em branco e que uma linda história seja escrita!

Verônica

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Atravessando a Fronteira do Bom Senso



Como usuária de redes sociais há muito, eu já vi e li tanta coisa nessa internet que é de assombrar, é de embrulhar o estômago. São muitos irresponsáveis que se escondem atrás de perfis fake para disseminar piadas sádicas de mau gosto e mentiras deslavas. Até aí tudo bem, a gente ignora, bloqueia, deixa de seguir e pronto, ta tudo certo! Não somos obrigados a ver nem compactuar com essa palhaçada desumana.

Mas ultimamente o que te me chamado a atenção é a quantidade de pessoas que perderam o bom senso, a solidariedade e a capacidade de se colocar no lugar do outro respeitando a dor do momento, sem ter o mínimo de consideração pelo sofrimento que as pessoas próximas das vítimas e, mais ainda, os familiares estão vivendo. A tragédia que aconteceu essa semana com o Presidenciável Eduardo Campos  mais seis pessoas foi o estopim para a minha revolta. Eu já fiz uma faxina nas minhas redes sociais. Descartei um monte de pessoas que se comportaram feito lixo diante de uma tragédia, diante da dor de várias famílias e diante da consternação de milhares de brasileiros no País afora.

São piadas de mau gosto, teorias conspiratórias, chacotas sem o menor pudor e o pior, vi isso de pessoas que eu conheço. Existem os canalhas que fazem e os não menos canalhas que curtem e compartilham essa total falta de noção. Não são fakes querendo 5 minutos de fama, são pessoas reais, assim como eu e você, que têm família, filhos, marido, esposa, pai, mãe... As pessoas simplesmente perderam a noção do respeito ao ser humano. Pensam que na internet pode tudo. Acho que algumas pensam que o mundo real é um e o mundo virtual é outro, mas não é! O que você faz e compartilha na internet só mostra o seu caráter. Mostra se você é um cretino ou um cidadão de bem. As pessoas estão perdendo o discernimento e estão mostrando uma leviandade sem tamanho.

Hoje se acontecer um acidente as pessoas correm para cima da carnificina, não para buscar sobreviventes ou ajudar nas buscas, correm pra tirar fotos e fazer vídeos para espalhar para os contatos no Whats App, ou compartilhar no Facebook ou Instagram. Aí eu me pergunto: Qual é a vantagem disso? Que tipo de prazer você sente saindo na vanguarda da propagação da dor?

Na Bíblia em: 1 Coríntios cap. 10 vers. 23 diz: Tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica.

Não é porque seu celular tem um bilhão e duzentos milhões de mega pixels que você precisa tirar uma foto de um acidente que aconteceu. Não é porque sua internet é 3G turbinada que você vai enviar essa mesma foto pro parente que mora lá em outro continente. Eu não sou médica legista. Eu não preciso e NÃO QUERO ver corpos em pedaços. Eu não sou perita, eu não preciso ver os destroços do avião que caiu, ou do carro que capotou, ou da moto que entrou embaixo do caminhão. Tenho certeza que assim como eu, muitas outras pessoas também não querem. Acorda, gente! Trata-se da vida de outro ser humano, poderia ser você ou um dos seus.

Outra coisa irresponsável que tem se espalhado na internet é a quantidade de piadas sem graça, com montagens bizarras acompanhadas de teorias mirabolantes de um caso de sabotagem e etc. Parem de ser irresponsáveis, deixem que a polícia investigue. 

Respeitem a dor dos familiares de quem se foi. Não é engraçado, é mórbido! Não é inteligente, é leviano! Não é revelador, é bizarro! É nessa sociedade que nos transformamos? É esse legado que deixaremos para nossos filhos? Não permita que a incapacidade de se colocar no lugar do outro te transforme em um bárbaro.


Verônica

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Encontro Literário de Gigantes


Esse ano de 2014, definitivamente, não está sendo um ano bom para a literatura mundial e não está sendo bom, sobretudo, para as minhas referências literárias.  Estou perdendo meus faróis na praia escura da vida. Em abril perdi Gabriel García Marquez, agora em Julho já perdi João Ubaldo Ribeiro dia 17, Rubem Alves dia 18 e Ariano Suassuna dia 23. Certamente está acontecendo um encontro literário de gigantes no céu, e os melhores estão sendo convocados

Falo “perdi”, no singular, porque infelizmente nem todos conhecem esses escritores, suas obras e a grandiosidade delas. Ouviram falar e sabem que é importante porque a TV enfatiza a manchete, ou porque tem um filme, ou minissérie, ou algum outro programa, tipo: novela “inspirada na obra”. Mas nunca se encantaram com as poesias, se emocionaram com as histórias, pararam para refletir sobre a crônica ou riram dos contos. O que, sinceramente, é uma pena. Compartilhar dessas experiências e contemplar tanto conhecimento promove uma elevação absurda, tanto intelectual, como espiritual. Me sinto uma felizarda.

Eu não digo que estou órfã, embora me sinta, porque esses que se foram estão no Olimpo dos escritores e os deuses são imortais, assim como as suas obras. Mas, me sinto desamparada, e uma sensação de desalento me toma. É como se eu tivesse perdido meu norte, ao menos, perdi quatro pontos de referências que costumava seguir os passos. Continuarei seguindo, ou pelo menos tentando, embora o caminho deles já tenham tido um ponto. Ainda que de continuação.

Com Gabriel, inquieto, irreverente e polêmico que só ele, aprendi “Que tudo é uma questão de despertar a alma...” Aprendi também que muitas vezes “É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos da razão. O importante é aproveitar o momento e aprender a sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver.” Gabriel era assim: prático e objetivo. Não se vitimizava, nem transferia responsabilidades. Sua coragem e ousadia me ensinaram muito. Um exímio amante da vida. Foi meu mestre.

Já Ubaldo, ah o bom baiano de voz grave, sorriso largo, gargalhada alta e alma tranquila. Nunca teve a pressa como companhia. Era um rubro-negro apaixonado (Vitória nosso amor!) e um boêmio daqueles que dava gosto de ver. Polêmico, não fugia de uma boa celeuma (A Casa dos Budas Ditosos que o diga). João Ubaldo era jornalista, roteirista, professor e encantador de pessoas. Ele era do tipo de gente que deixa a gente melhor, sabe? Nesse mundo fútil, ranzinza e cheio de ranço que nos dá até desgosto de ver, ele servia para mostrar que a vida é simples, bonita e com calma e boa vontade tudo se resolve. Quanto do seu pensamento ora clareou o meu, ora desordenou tudo. Quantos bate-bocas imaginários tivemos e como eles me deixaram mais esperta. Quantas vezes concordei. Quantas e tantas discordei. Mas, sempre o admirei. Sempre quis ser, pelo menos, parecida com ele.
João uma vez disse: “Faço tudo que me dá na cabeça, não quero saber de limitações. Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado pra fazer.” Ele era um homem de coragem. Aí eu pergunto: Como não amá-lo? Como não admirá-lo?

Quando eu decidi escrever sobre Rubem Alves eu me perguntei: De quem devo falar? Do professor? Do psicanalista? Do teólogo? Do ativista político? Do poeta? Ou do coerente escritor? Fiquei numa dúvida danada e não consegui me decidir. Aí eu decidi falar do homem simples, doce e de mente brilhante que tantas vezes me inspirou. Rubem era do tipo apaziguador. Quem lê suas obras é envolvido por uma paz sem igual e percebe que muitas vezes é só parar pra analisar com calma aquela situação que tudo fica mais simples. É só esperar a cólera se dissipar. Quem conhece Rubem Alves é colocado a se questionar sobre a vida, sobre as ações e sobre os caminhos a seguir. Como ele mesmo disse “toda alma é uma música que se toca.” Agora Rubem se foi, mas sua obra não se cala. Ela permanece viva e cheia de mensagens subliminares a nos passar. Pra mim fica apenas a saudade. Mas ele me ensinou que: “A saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.” Eu queria voltar no tempo. Parar o tempo e ter o mestre sempre aqui. Hoje posso dizer que “Amo a minha vocação que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem o amor, mas não tem o poder.” Obrigada, Rubem Alves!

Ariano Suassuna é mais e maior que o Alto da Compadecida e toda confusão e acusação de plágio que ela envolve. Ariano é poesia, é orgulho. Amo-o e admiro-o por tudo que ele foi e fez. Ele foi o paraibano mais pernambucano que conheci. Mas, ele poderia ser cearense, baiano, sergipano ou qualquer outro “ano” da vida porque ele era nordeste. Carregava nossa bandeira com o afinco dos grandes guerreiros. Com ele aprendi que nunca devia “trocar meu oxente, pelo ok de seu ninguém”. O nordeste é uma região linda, tem um povo guerreiro, sofrido e feliz. Guarda riquezas e grandezas incalculáveis. Abençoado aquele que tem a honra de nascer numa região assim. Foi Ariano que me mostrou isso. Com ele aprendi também que não importa o quão tensa seja a situação, sempre cabe uma pitada de humor e de amor. Esses dois elementos cabem em qualquer lugar. Ariano era doce e ácido ele dizia que Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.Agora, para nossa tristeza, esse homem bom: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.”


Vejam bem, meus queridos mestres, os quatro, prestem o máximo de atenção, vocês me mostraram que viver é mais suave, mais fácil e mais belo porque vira e mexe Deus envia gente como vocês para aprontar das suas aqui embaixo. Tem tanta obra maravilhosa de vocês espalhadas por aqui que a saudade que já existe, e é enorme, quase não vai apoquentar tanto. Porque vocês são do tipo de gente que nasce, vive e não morre nunca mais.

Verônica