quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Eu Te Amo De Várias Formas Ditas (Ou Não Ditas)

(by Cinthya)

Manoel e Vitória casaram muito novos, como sempre acontecia na zona rural dos pequenos municípios do interior Pernambucano. Dessa união veio o primeiro filho, o segundo, o terceiro... o vigésimo filho. Eita 'nois'! Vinte filhos de uma única união. Nunca houve uma briga, uma separação. Nunca pediram 'um tempo' ou precisaram viajar sem a presença do outro para repensar a relação.
Como as coisas eram tão diferentes do que temos hoje, talvez nunca tenham dito, sequer um EU TE AMO em palavras. Mas, um casamento que dura setenta e três anos já é, por si, uma prova de amor imenso.
Manoel, com o passar dos anos e com a ida para a cidade, foi adoecendo e ficando debilitado fisicamente. Mas continuou extremamente carinho e amoroso com todos os filhos, os netos, os bisnetos. Vitória, por sua vez, tinha força física, mas a mente comprometida. Foi-se esquecendo de todos, lembrando por momentos e depois voltando a esquecer. Engraçado! Também nisso eles se completavam.
Quando viajavam para casa dos filhos, em outra cidade, para tratamento médico, sempre perguntavam pelo parceiro que ficara em casa:
- Minha filha, Manoel já jantou? Coloque o jantar dele primeiro. Ele come cedo.
Ou então:
- Será que Vitória tomou o remédio?
Isso também era dizer EU TE AMO em alto e bom tom.
Quando em casa, estavam sempre juntos. Assistiam a TV juntos, sentavam na varanda juntos e mesmo quando ele não mais andava, estavam sempre juntos. O dia inteiro juntos. Por vezes se podia ver um a olhar o outro. Em silêncio, apenas observando o companheiro. Como se os olhos gritassem EU TE AMO.
Manoel piorou de sua doença e em 24 de dezembro de 2008, as 17h30min veio a óbito, na sua cama, no seu quarto, na sua casa, em meio aos seus filhos e netos. Foi o natal mais triste daquela família.
No velório, por vezes Vitória parecia em outro mundo, por vezes dizia: "Foi um grande homem, marido e pai de família"... Depois, calava-se e ficava alheia a tudo. Isso também era dizer EU TE AMO.
Passaram-se trinta dias de sua partida quando a família juntou-se para celebrar a missa de um mês de falecimento de Manoel. Aos pés do altar estava Vitória. Linda, bem vestida e perfumada. Sentada na sua cadeira especial. Calada. Particularmente calada naquela tarde. Ao término da missa ela disse: "Podem me deixar aqui, aos pés de Jesus". Os filhos a levaram para casa - no outro lado da rua.
Ela tomou seu cafezinho e disse: "Hum... Que delícia!"
Naquela tarde estava agendada a visita do médico para ver o estado dela. O médico da família chegou e a sentou no leito para sentir seus batimentos. Pediu para que ela deitasse para facilitar o exame e ela deitou... Na mesma cama onde o marido falecera há exatos trinta dias.
Eram 17h30min do dia 24 de janeiro de 2009 quando Vitória deu seu último suspiro. Ali na sua cama, no seu quarto, na sua casa, em meio aos filhos, netos e médicos.
E essa também foi uma forma de dizer EU TE AMO.

  

Essa é uma das mais belas histórias de amor que já vi ou ouvi. A história de um bem sucedido casamento, um amor sem adornos, alegorias ou contos de fadas. Um amor simples, sem nada de extraordinário ou extravagante. Uma relação sem declarações escancaradas.
Um amor concreto, real, e forte. Um amor de respeito, de parceria, de cumplicidade.
Um amor tão forte que nem a morte separou.
Manoel e Vitória entraram para a história da pequena Trindade/PE. E é com as lágrimas jorrando, o coração apertado e cheia de orgulho que termino de escrever para vocês a linda história de amor dos meus avós.

Uma saudade imensa deles.

Ainda sinto o cheirinho aconchegante que só eles tinham... O cheiro de um era o cheiro do outro...

Um amor para recordar, enfim!

8 comentários:

O Divã Dellas disse...

E com um histórico amoroso desse na minha família não posso ser diferente do que sou e não posso deixar de acreditar no amor. Um amor real daqueles que faz tudo ter sentido.
Enfim...
Estou particularmente emocionada com o post de hoje.

Cinthya

O Divã Dellas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Verônica disse...

Eu quero uma amor desse pra minha vida. É disso que eu sinto falta. Obrigada, amiga! Por desabafar e abrir seu coraçao pra nos contar essa linda história.
Estou emocionada. E com um histórico desse na família você não poderia ser diferente. Amor à flor da pele.
Uma vez, eu presenciei um lindo gesto de amor. Juro que foi sem querer. Um casal conversando e a mulher (sempre mais carente)se lamentando com o seu esposo: "Você nunca diz que me ama." Ao que ele respondeu: "Eu digo sim, você que não percebe. Digo em silêncio, falo com os gestos."
Achei isso tão lindo.

aliny disse...

Sem palavras pra esse texto...

Emocionada!

E como vc mesma citou : " E com um histórico amoroso desse na minha família não posso ser diferente do que sou e não posso deixar de acreditar no amor."

Milinha disse...

Lindooooooooooooooo msm o texto. Eu também tenho um histórico desse na minha família. E vou te contar... sempre foi a coisa mais lindaaaaaaaaa ver meus avós juntos. O grande homem e a grande mulher pequena. Acho que por isso também ainda acredito no amor. Mesmo com tudo que já passei... desilusões, sofrimentos... Mesmo ainda quebrando a cara. Acredito que o AMOR existe... desse jeito... forte, intenso, lindooooooooo!!! Beijoooooooooos Meninas... E parabéns pelo sucesso do blog!!!

3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Que fofos, Cinthya! Adorei, grande história.

Beijão,

Bela - A Divorciada

Mirys disse...

Cy:

Que lindo!!! Lindo demais! Tocante demais!!!

Uns anos atrás, fui num velório de um senhor da igreja, beeeem velhinho, e ouvi alguém dizer para a viúva "- Eu sei que dói... ele era o amor da sua vida!" e a viúva responder: "- Não... ele era A MINHA VIDA!"

Sem maiores comentários!
Bjos e bençãos.
Mirys
www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com

OBS: agora entendi o que comentou no post sobre o aniversário da minha avó. Desculpe trazer lembranças...

Debby disse...

Vocês agora me deixaram profundamente emocionada porque a minha vó viveu com meu avô quase o mesmo tempo e quase a mesma história de vida aqui no sertão da Bahia.
Mas meu vô foi primeiro e ela depois... sei que saudade não traz ninguém de vvolta mas dizem que é um amor que fica né ??
Eles tiveram mais de 10 filhos e é desse amor que sinto falta sabe ?? acho que por isso que me sinto tão só !!! :)
Beijos no coração de vocês
Debby :)