quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Vive la liberté!



Era uma tarde quente de setembro, eles estavam num campo, o que mais parecia um imenso jardim... O sol acariciava a pele de ambos. Eles eram só sorrisos. O amor que emanava deles era lindo e uma delicia de sentir.

Foi então que ela ouviu um barulho na porta que lhe despertou do seu devaneio, estava lembrando dos momentos bons que tinham vivido juntos. Ela estava deitada, fitando o teto, as persianas do quarto estavam fechadas e ela não sabia se ainda era dia, ou se já era noite. Não sabia se tinha dormido, ou se esteve o tempo inteiro acordada. Ela estava numa espécie de transe.


Olhou em volta, sem se levantar, e percebeu o ambiente estava vazio. Ele foi embora. O perfume dele ainda estava no ar e o chaveiro pendurado na porta ainda balançava. Ele se foi há pouco tempo. Sentiu uma coisa estranha dentro dela, um aperto na barriga. É agora que eu vou chorar - Ela pensou. Segundos depois percebeu que era a barriga que roncava. Um protesto por várias e várias horas sem receber alimento. Que estranho, eu não sinto a mínima vontade de chorar - constatou com espanto.

Levantou cambaleando e se dirigiu à cozinha, durante o breve trajeto foi imaginando o que queria comer. Um hambúrguer!! Um sorriso travesso brotou em seus lábios. Então se lembrou que não tinha carne de hambúrguer em casa. Talvez um miojo? Não tem miojo também! Sua frustração era visível. Pro inferno com a dieta! Vou pedir uma pizza. Se movimentou graciosa e desesperadamente até o telefone. Pedido feito. Missão cumprida. Agora é só esperar.

Depois do pedido feito, decidiu tomar um banho. Já no banheiro, percebeu que ele havia esquecido uma camiseta. Ainda estava molhada de suor consequência do treino recente. Ela sentiu uma vontade incontrolável de agarrar-se àquela pequena peça que tanto lembrava ele. Segurou a camiseta com as duas mãos e inspirou profundamente. Um cheiro forte e cortante de suor e saudade invadiu suas narinas e imediatamente se arrependeu de ter feito. Arremessou a camisa depressa no cesto de lixo.

No box, tirou a calcinha. Lavou-a com sabonete e a pendurou no chuveiro. Ele morreria se visse - o pensamento lhe ocorreu de imediato. Tomou um demorado e relaxante banho. Oh, droga! Esqueci a toalha. Foi do banheiro ao quarto deixando um rastro de água por onde passava. Ele também enlouqueceria ao me ver fazer isso. Foi então que ela percebeu o quão neurótico, obsessivo por poder e controlador ele era. Decidiu que faria tudo ao contrário. Só pra sacanear.

Vestiu sua calça de moletom e uma camisa folgada que estava esquecida no armário. Enquanto se vestia começou a lembrar-se de tudo que negligenciara em nome desse amor. Lembrou-se de tudo que teve de abrir mão e das pessoas que teve de se afastar. Quanto sacrifício para viver uma história com um homem autoritário, controlador e ditador. A primeira pessoa de quem se lembrou foi de sua mãe. Decidiu ligar pra ela.

- Alô, mãe?
- Oi, Filha! Que bom ouvir sua voz. Como você está?
- Eu estou bem, mãe! Ele foi embora.
- Oh, filha... Eu sinto muito! Você tem certeza que está bem?
- Tenho sim, mãe! Sinto-me aliviada. Não chorei e nem sinto vontade. É estranho, mas eu me sinto liberta. vou visitá-la no final de semana. Te amo, mãe!
- Eu também te amo, filha. Estou com saudades! Beijos e fique bem.

Não demorou muito e ouviu o interfone.

- Pois não?
- Entrega de pizza para a senhora - disse a voz anasalada do outro lado da linha
- Ah, pode subir.

Seus olhos brilharam ao avistar aquela pizza enorme, com aquele cheiro maravilhoso e o queijo derretido. Lembrou-se das dietas rigorosas a qual se submeteu, em busca do corpo perfeito para agradar o amado. Lembrou-se também das horas de treino, das corridas, suplementos e a quantidade de verduras que teve que ingerir. Encarnar a "Geração Saúde" não fora uma tarefa fácil, mas ela se esforçou. A obsessão dele por um corpo bem moldado, músculos rígidos e abdômen batido não conhecia limites. Era quase um treinamento militar.

Pegou sua pizza e sentou-se em frente a TV. Dexter! Que saudade! Como alguém pode não gostar de Dexter? É simplesmente genial. Ele não gostava de Dexter - ela lembrou. Depois de falar com a sua mãe, comer o que gostava, assistir o que queria ela se sentiu inundada por uma sensação de liberdade.

Percebeu que estava com saudade dela mesma e de tudo que deixou de ser. Ficou feliz em ter seu espaço de volta. Retomar seus hábitos e não se sentir pressionada. Nem obrigada a fazer o que não queria. Celebrou o dia mais feliz de sua vida, até então. Esse é apenas o primeiro - foi seu ultimo pensamento antes de adormecer.


Verônica

3 comentários:

Das coisas que vejo e gosto. disse...

Que delícia de texto!
E que vontade me deu de comer pizza!! Hahaha

Beijos, amada!!!

Saudades ...


Selma

O Divã Dellas disse...

Selma, vc, como sempre, de um amor! Obrigada!


Verônica

Anônimo disse...

O GOSTO DA LIBERDADE ! este sim prazeroso ......
A experiencia de poder sentir tal sensação, significa que com somos capazes de superar qualquer prisão ou dificuldade.
Otimo texto .
bj mininas .....