quarta-feira, 16 de maio de 2012

Construindo Nossas Vidas


(by Cinthya)

A médica olhou para o resultado do exame e ficou pensativa. Eu, do meu lado, senti uma aflição crescer de forma desgovernada. Um pressentimento de que alguma notícia indesejada estava por chegar aos meus ouvidos. Ela leu e releu o papel, mas não conseguiu esconder a negativa no seu olhar. Então ainda olhando para o resultado disse: ‘É, Mãe. Não tem jeito, vamos partir para o procedimento cirúrgico”.
Pareceu que o chão se abriu. E eu não consegui falar nada. Olhei imediatamente para ele que estava sentado na cadeira vermelha de rei (a poltrona do consultório da Otorrino) a levantar e baixar os braços da poltrona, de forma incansável. Ele não se preocupou com o diagnóstico, na sua simplicidade continuou a brincar até que me olhou nos olhos e, vendo minha inquietação soltou um lindo sorriso (ele sempre faz isso quando percebe que eu não estou bem) e continuou sua brincadeira.
E então eu percebi que não tinha outra saída, que eu não tinha outra opção. Aliás, uma opção era me desesperar e resolver tudo assim mesmo, desesperada e a outra opção era engolir seco, manter a firmeza e enfrentar tudo, sem pensar muito, sem dar muita ousadia para o medo e para as preocupações.
De novo ele parou de mexer na poltrona e me enviou outro lindo sorriso e eu sorri em troca. A médica então começou a falar sobre todos os exames que precisaria fazer antes de marcar a cirurgia. Ela falava, falava, falava e a essa altura eu já nem entedia mais nada. Não é fácil a gente entrar em guerra íntima contra nós mesmos. Não é simples. Eu sai de lá atônita ainda. Seguimos para a nossa peregrinação de clínicas, marcações, filas, exames, resultados.
Comecei então a pensar em como ele reagiria a tantas furadas de agulha e tantos outros procedimentos estranhos para o seu mundo. Pensei nos choros, nos medos, enfim. Decidi usar da sinceridade. E antes de sair para fazer os exames eu conversei com ele, expliquei tudo detalhadamente. Usei do lúdico, claro, afinal ele só tem quatro anos de idade e fica mais fácil a sua compreensão se a brincadeira estiver presente.
A cada exame, ele me surpreendeu com sua calma e sua força. Não chorou. Não fez escândalo, não se negou, não se remexeu. Quando ele se sentia assustado, me olhava com aqueles olhos lindos e negros, grandes e vivos e então eu entendia e segurava sua mãozinha. Assim foi em todos os procedimentos. Um comportamento lindo, de dar orgulho a toda mãe.
Então eu entendi que a minha postura é crucial para as reações dele. Se eu, com trinta e seis anos, tivesse esboçado medo, terror, choro como ia esperar que ele, aos quatro anos, se comportasse com calma? Eu engoli meu medo para ser o mais serena possível.
 Não existia a figura do pai para segurar a minha mão e me dar força para seguir. Não existe ninguém para me passar a calma que eu preciso e eu sei como isso dói. Eu sei como isso reflete no meu dia, no meu trabalho, no meu rendimento. Engolir o choro passou a ser uma sensação contínua. Sei que isso vai pipocar em alguma coisa, afinal de contas, é muito sentimento sufocado aqui dentro. Mas entre eu sofrer calada ou ele me ver sofrendo e sofrer também, nem preciso dizer a opção escolhida.
Entendi o peso da minha postura na vida dele. Percebi o quanto ele confia em mim, no que eu digo e, muito principalmente, no que eu faço. É minha responsabilidade acalmá-lo, informa-lo e não subestimar a inteligência dele. Usar da clareza para que ele não seja pego de surpresa.
Não sei se é sugestão, não sei se é amizade ou simplesmente amor. Mas sei que funciona. E nós temos construído nossa vidas dessas forma: com base na confiança, na clareza, no amor. E que tudo dê certo. Amém.

3 comentários:

Debby disse...

Cyyy que lindo e olha que show:
"Eu engoli meu medo para ser o mais serena possível."

Nossa bárbaro isso...
Amei seu post hoje e miga seguinte.. somos pais e mãe e isso já é o suficiente el algumas vezes.
E você como sempre D+++

Bjs
Debby :)

Das coisas que vejo e gosto. disse...

E dará , flor!
Beijos e pensamentos super positivos.

Selma.

O Divã Dellas disse...

Debby e Selma:
Obrigada pelo carinho.
Vais dar tudo certo sim.
Não me permito pensar de outra forma.
Obrigada pelo carinho de sempre.
Cinthya